sábado, 19 de setembro de 2009

6º, 7º, 8º e 9º ANOS - Texto completo - MATO GROSSO DO SUL: um grosso caldo cultural


Marcos Antônio Bessa-Oliveira 

Ao pensarmos que “cada vez mais os meios de comunicação de massa se tornam parte integrante da experiência cotidiana das sociedades contemporâneas” (Lopes, A delicadeza, 2007, p. 17), podemos partilhar da ideia de que esses “meios de comunicação” massificados corroboram muito o que é dito hoje sobre a identidade plural que o sujeito tem. Alguns teóricos acreditam que já não existe mais uma identidade singular; defendem a ideia de que o sujeito é plural na contemporaneidade.

Analisando a formação cultural do povo sul-mato-grossense, podemos dizer que ela foi, e ainda é, construída por essas confluências de linguagens com esses “diferentes” que habitam o seu território geográfico-político. Vale lembrar, ainda, que, por aqui, muitos passaram e ficaram; outros dividem as “fronteiras imaginárias” que, como define Hissa, grosso modo, foram, antes, demarcadas por aspectos geográfico-naturais do relevo de cada região e que, hoje, são delimitadas por simbolismos de concreto e ferragem, os chamados Marcos, como acontece no caso das divisas do Mato Grosso do Sul com a República do Paraguai e com a Bolívia. Sobre fronteiras e limites entre as regiões, Hissa diz que “fronteiras e limites são desenvolvidos para estabelecer domínios e demarcar territórios” (Hissa, Mobilidade das fronteiras, 2002, p. 35).

Partindo do pressuposto de que o Estado de Mato Grosso do Sul tem os seus “limites” territoriais “divididos” geograficamente com os países Paraguai e Bolívia, podemos pensar em uma “referencialidade” nas obras de arte aqui produzidas por artistas plásticos sul-mato-grossenses pautados por esse diálogo próximo com os dois países. Afinal, como postula Hall (A identidade cultural na pós-modernidade), grosso modo, as identidades-culturais e, por extensão, as produções culturais, primeiro se constroem pela proximidade ou diálogo com outras culturas.

Ser ou não ser um artista representante da arte sul-mato-grossense? Vender ou não vender, sob o aval do Estado, a sua produção artística? Diríamos que podem pensar assim os produtores artístico-culturais do Estado de Mato Grosso do Sul. Se lá, nos grandes centros, a preocupação do artista já não se constitui nas relações com ou sem as instituições financiadoras, se a arte já não precisa mais ser engajada a questões politicamente corretas ou incorretas, se esse engajamento já não serve mais para taxar a produção atual de boa ou ruim e, muito menos, se a produção cultural, de modo geral, deve carregar a bandeira verde-amarela, aqui no Estado, contrastivamente, podemos dizer que alguns artistas ainda continuam usando Black-Tie, Verde-Amarelo e Vermelho-Branco. Ou seja, a consciência do artista sul-mato-grossense ainda é, de modo geral, a de se valer das instituições de fomento, ancoradas no Governo estatal, para expor/expor-se, visando produzir objetos artísticos que se referenciam em modelos acadêmicos consagrados, paisagens, retratos, esculturas etc, empunhando, assim, as bandeiras de referências internacionais. E levantam a bandeira Verde-Amarela proposta pelo Estado-Nação como ícone da identidade artística do Estado. (Nolasco, “Para onde devem voar os pássaros depois do último céu?”, 2008)

Os artistas de Mato Grosso do Sul, no geral, ainda precisam da ajuda de araras, tuiuiús, Pantanal e outros exotismos mais para as suas produções artístico-culturais.

Mato Grosso do Sul é um estado da federação brasileira que tem em sua história de formação características peculiares: se primeiro o Estado só se torna um estado independente após a sua separação de Mato Grosso em 1977, em segundo lugar ele hoje é constituído, e continua se constituindo, por imigrantes vindos de várias partes do mundo. Além de contar com divisas internacionais; Bolívia e a República do Paraguai, o Estado de Mato Grosso do Sul conta com cinco divisas nacionais: Mato Grosso, Goiás, São Paulo, Minas Gerais e com o Paraná. Tais características tornam o Estado um lugar particular no cenário cultural brasileiro, pois aqui as culturas dos diferentes viajantes e transeuntes tornam a sociedade sul-mato-grossense um grosso caldo cultural constituído de culturas diferentes.

No lugar do pão de queijo que bem representa Minas Gerais; do churrasco e chimarrão que são a cara dos gaúchos; da cerâmica Marajoara que é amazonense; do artesanato de barro que é forte culturalmente no Nordeste brasileiro, o Estado de Mato Grosso do Sul não tem apenas um objeto ou produto artístico, cultural ou mesmo pessoal só que o represente em sua totalidade. Ou seja, aqui no Estado o pão de queijo mineiro também se torna pão de queijo sul-mato-grossense quando se encontra com a chipa que é trazida pelos paraguaios; vindo dos gaúchos o churrasco quando chega em Mato Grosso do Sul ganha a companhia da mandioca que é culturalmente indígena, o chimarrão, por causa do calor do Centro-oeste, encontra-se com um quase parente de origem paraguaia que é o tererê; se aqui no Estado não temos aldeias indígenas de etnia Marajoara, temos por outro lado a Terena e a Kadiwéu, entre outras, que fizeram dos seus artefatos de cerâmica peças que hoje representam parte dessa nossa cultura particular e misturada no mundo inteiro; além de termos outros tantos traços culturais vindos dos nossos Estados e Países vizinhos; línguas e linguagens, culinárias, hábitos e vestimentas que hoje são nossos e deles também. As culturas fronteiriças ao Estado de Mato Grosso do Sul vivem num eterno leva e traz interminável. Aqui no Estado a cultura do outro é recebido e transformada em nossa cultura também.

Nas artes plásticas que são produzidas em Mato Grosso do Sul também têm características que são vindas e adaptadas ao nosso Estado de todas essas culturas. São esculturas feitas de raiz de mandioca que hoje são conhecidas como os Bugres da Conceição; a Cerâmica Kadiwéu que podemos dizer que traz nas cores nela pintada a cor “morena” do Estado de Mato Grosso do Sul; pinturas que mostram as paisagens pantaneiras: o pôr-do-sol, o voo das aves que aqui chegam e partem aos bandos; filmes que interpretam as poesias dos poetas sul-mato-grossenses; se as cuias gaúchas são feitas lá com a cabaça, aqui elas ganham um traço da abundância bovina presente nas fazendas de Mato Grosso do Sul; os nossos japoneses não comem apenas frutos do mar e raízes, eles foram encantados pela carne, pela mandioca; o sobá sul-mato-grossense não é o mesmo trazido de Okinawa, mas é ainda conhecido como uma culinária japonesa.

O Estado de Mato Grosso do Sul é um caldo de cultura que se engrossa todos os dias com aqueles visitantes que para cá vêm e ficam, e por aqueles que por aqui apenas passam mas trazem na bagagem um pouco das suas culturas vindas juntos com eles, e por conseguinte, acabam levando um pouco da nossa cultura também.


Referências

Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 9. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

Hissa, Cássio Eduardo Viana. Mobilidade das fronteiras: inserções da geografia na crise da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

Lopes, Denílson. A delicadeza: estética, experiência e paisagens. Brasília: Editora Universidade de Brasília: Finatec, 2007.

Nolasco, Edgar Cézar. “Para onde devem voar os pássaros depois do último céu?”. In.: Raído: Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFGD/ Universidade Federal da Grande Dourados n. 1 (2007)-. Dourados, MS: UFGD, 2008. p. 65-76.



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

6º e 8º ANOS - Vídeo de aulas de desenhos inspirados no artista Gustav Klimt

Alunos do 6º e 8º anos, vejam esse vídeo de um curso de Arte-educação - de aulas de desenho - inspirado na obra do artista plástico Gustav Klimt:












domingo, 13 de setembro de 2009

9º ANO - Texto Completo - Teatro, Performance e Teatro Performático


Teatro


O teatro é uma arte em que um ator, ou conjunto de atores, interpreta uma história ou atividades, com auxílio de dramaturgos, diretores e técnicos, que têm como objetivo apresentar uma situação e despertar sentimentos no público.

Toda reflexão que tenha o drama como objeto precisa se apoiar numa tríade teatral: quem vê, o que se vê, e o imaginado. O teatro é um fenômeno que existe nos espaços do presente e do imaginário, e nos tempos individuais e coletivos que se formam neste espaço.

O vocábulo grego Théatron estabelece o lugar físico do espectador, "lugar onde se vê". Entretanto o teatro também é o lugar onde acontece o drama frente aos espectadores, complemento real e imaginário que acontece no local de representação. Ele surgiu, supõe-se, na Grécia antiga, no século IV a.C..


História do teatro

A consolidação do teatro, enquanto espetáculo, na Grécia antiga deu-se em função das manifestações em homenagem ao deus do vinho, Dionísio (equivalente ao deus romano Baco). A cada nova safra de uva, era realizada uma festa em agradecimento ao deus, através de procissões.

Com o passar do tempo, essas procissões, que eram conhecidas como "Ditirambos", foram ficando cada vez mais elaboradas, e surgiram os "diretores de coro" (os organizadores das procissões).

Nas procissões, os participantes se embriagavam, cantavam, dançavam e apresentavam diversas cenas das peripécias de Dionísio. Em procissões urbanas, se reuniam aproximadamente vinte mil pessoas, enquanto que em procissões de localidades rurais (procissões campestres), as festas eram bem menores.

O primeiro diretor de coro foi Téspis, que foi convidado pelo tirano Préstato para dirigir a procissão de Atenas. Téspis desenvolveu o uso de máscaras para representar pois, em razão do grande número de participantes, era impossível todos escutarem os relatos, porém podiam visualizar o sentimento da cena pelas máscaras.

O "Coro" era composto pelos narradores da história, que através de representação, canções e danças, relatavam as histórias do personagem. Ele era o intermediário entre o ator e a platéia, e trazia os pensamentos e sentimentos à tona, além de trazer também a conclusão da peça. Também podia haver o "Corifeu", que era um representante do coro que se comunicava com a platéia.

Em uma dessas procissões, Téspis inovou ao subir em um "tablado" (Thymele – altar), para responder ao coro, e assim, tornou-se o primeiro respondedor de coro (hypócrites). Em razão disso, surgiram os diálogos e Téspis tornou-se o primeiro ator grego que foi consagrado deus do universo, por causa do professor kalil.


Teatro no Brasil

O teatro no Brasil surgiu no século XVI, tendo como motivo a propagação da fé religiosa. Dentre uns poucos autores, destacou-se o padre José de Anchieta, que escreveu alguns autos (antiga composição teatral) que visavam a catequização dos indígenas, bem como a integração entre portugueses, índios e espanhóis. Exemplo disso é o Auto de São Lourenço, escrito em tupi-guarani, português e espanhol.

Um hiato de dois séculos separa a atividade teatral jesuítica da continuidade e desenvolvimento do teatro no Brasil. Isso porque, durante os séculos XVII e XVIII, o país esteve envolvido com seu processo de colonização (enquanto colônia de Portugal) e em batalhas de defesa do território colonial. Foi a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, que trouxe inegável progresso para o teatro, consolidado pela Independência, em 1822.

O ator João Caetano formou, em 1833, uma companhia brasileira. Seu nome está vinculado a dois acontecimentos fundamentais da história da dramaturgia nacional: a estréia, em 13 de março de 1838, da peça Antônio José ou O Poeta e a Inquisição, de autoria de Gonçalves de Magalhães, a primeira tragédia escrita por um brasileiro e a única de assunto nacional; e, em 4 de outubro de 1838, a estréia da peça O Juiz de Paz na Roça, de autoria de Martins Pena, chamado na época de o "Molière brasileiro", que abriu o filão da comédia de costumes, o gênero mais característico da tradição cênica brasileira.

Gonçalves de Magalhães, ao voltar da Europa em 1867, introduziu no Brasil a influência romântica, que iria nortear escritores, poetas e dramaturgos. Gonçalves Dias (poeta romântico) é um dos mais representativos autores dessa época, e sua peça Leonor de Mendonça teve altos méritos, sendo até hoje representada. Alguns romancistas, como Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, e poetas como Álvares de Azevedo e Castro Alves, também escreveram peças teatrais no século XIX.

O século XX despontou com um sólido teatro de variedades, mescla do varieté francês e das revistas portuguesas. As companhias estrangeiras continuavam a vir ao Brasil, com suas encenações trágicas e suas óperas bem ao gosto refinado da burguesia. O teatro ainda não recebera as influências dos movimentos modernos que pululavam na Europa desde fins do século anterior.

Os ecos da modernidade chegaram ao teatro brasileiro na obra de Oswald de Andrade, produzida toda na década de 1930, com destaque para O Rei da Vela, só encenada na década de 1960 por José Celso Martinez Corrêa. É a partir da encenação de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, que nasce o moderno teatro brasileiro, não somente do ponto-de-vista da dramaturgia, mas também da encenação, e em pleno Estado Novo.

Surgiram grupos e companhias estáveis de repertório. Os mais significativos, a partir da década de 1940, foram: Os Comediantes, o TBC, o Teatro Oficina, o Teatro de Arena, o Teatro dos Sete, a Companhia Celi-Autran-Carrero, entre outros.

Quando tudo parecia ir bem com o teatro brasileiro, a ditadura militar veio impor a censura prévia a autores e encenadores, levando o teatro a um retrocesso produtivo, mas não criativo. Prova disso é que nunca houve tantos dramaturgos atuando simultaneamente.

Com o fim do regime militar, no início da década de 1980, o teatro tentou recobrar seus rumos e estabelecer novas diretrizes. Surgiram grupos e movimentos de estímulo a uma nova dramaturgia.


Gêneros teatrais

Auto, Comédia, Drama, Farsa, Melodrama, Melodrama no teatro, Ópera, Monólogo, Musical, Revista, Surrealismo, Tragédia, Tragicomédia, Teatro infantil, Teatro de falado, Teatro de fantoches, Teatro de sombras entre outros.



Performance


A performance, art performance ou performance artística é uma modalidade de manifestação artística interdisciplinar que - assim como o happening - pode combinar teatro, música, poesia ou vídeo. É característica da segunda metade do século XX, mas suas origens estão ligadas aos movimentos de vanguarda (dadaísmo, futurismo, Bauhaus, etc.) do início do século passado.

Difere do happening por ser mais cuidadosamente elaborada e não envolver necessariamente a participação dos espectadores. Em geral, segue um "roteiro" previamente definido, podendo ser reproduzida em outros momentos ou locais. É realizada para uma platéia quase sempre restrita ou mesmo ausente e, assim, depende de registros - através de fotografias, vídeos e/ou memoriais descritivos - para se tornar conhecida do público.


Origens

A performance foi introduzida nos anos 1960, pelo grupo Fluxus e, muito especialmente, através das obras de Joseph Beuys. Numa de suas performances, Beuys passou horas sozinho na Galeria Schmela, em Düsseldorf, com o rosto coberto de mel e folhas de ouro, carregando nos braços uma lebre morta, a quem comentava detalhes sobre as obras expostas.

Em alguns momentos, as performances de outros artistas tiveram ligação direta com as obras de body art, especialmente através dos Ativistas de Viena, no final da década de 1960.


Casos extremos

Em alguns casos, as performances ligadas à body art se tornaram sensoriais ou até masoquistas. Chris Burden rastejou sobre um piso coberto com cacos de vidro, levou tiros e foi crucificado sobre um automóvel.




OBS: após a leitura dos textos, que tratam respectivamente sobre Teatro e Performance, podemos fazer algumas deduções que nos ajudam a compreender o que pode ser um teatro performático:


Teatro performático


1 – O teatro performático pode ser uma representação teatral que se utiliza do teatro; dramaturgia, da música; como trilha sonora, da poesia ou conto; como enredo, do vídeo; como filmagem de uma performance realizada e que este vídeo servirá como registro de uma performance teatral;

2 – O teatro performático pode ser apenas de movimentos, sem falas;

3 – O teatro performático pode ser com movimento e fala;

4 – O teatro performático pode ser uma realização que se fará apenas uma vez e será registrado por fotografias e/ou vídeos;

5 – No teatro performático podem fazer parte de sua apresentação apenas determinado grupo ou pode envolver o espectador;

6 – O teatro performático assim como o teatro e a performance pode ter um figurino e cenário;

7 – Como no teatro e na performance, os atores ou performer podem se utilizar da dança para suas apresentações;

8 – O teatro performático deve se adaptar ao seu espaço de apresentação/encenação, seja ele em local fechado ou aberto, público ou privado;

9 – O teatro performático pode ser encenado por um ou mais atores ou performers;

10 – Diferentemente do teatro, o teatro performático deve ter um tempo reduzido, e deve despertar a interpretação crítica do espectador.


Referências


TEATRO. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro - acesso em: 06 de setembro de 2009.

PERFORMANCE. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Performance - acesso em: 06 de setembro de 2009.


9º ANO - Textos literários para as apresentações do Teatro-Performático



Sanga

Hélio Serejo. Lendas do Estado de MS. In: Obras completas, vol. VIII, p. 105-106

Sanga, na linguagem fronteiriça, quer dizer vala profunda e desbeiçada, aberta pelas enxurradas. Sanga tem sua história.

Lenda bonita que os de dantes contavam, na hora do mate de coco, pormenorizando tudo, na vivência do passado, para reavivar a memória, que nunca deve embotar-se, porque quem recorda o que passou – vive; e é no viver do passado remoto, que a alma da gente se alvoroça, e o pensamento fica ligeiro como corrida de gringo contrabandista.

Por isso, os antigos gostavam de desfilar lendas e contar histórias. A da sanga era assim.

A moça, flor do sertão, delicada e bela, enamorou-se de um jovem; de um rapagão, forte e musculoso, que ali aparecera. O mancebo chegou, e logo mostrou quem era: um corre-mundo, um safardana, um gaiteiro, um prófugo. De coisa de suar, de avermelhar o rosto, de vergar a espinha, nada queria. Só de festa, de bochinchada, gostava. E também adorava o baralho. Num truco refestelava-se todo. Gritava, fazia o sapateio, dizia versos picantes e soltava para o ar, num grito de guerreiro vitorioso, churriada de frases e ditos. Os pais da donzela o odiaram. Quem vivia a deambular, se metendo em desaguisado, provocando e ofendendo, trilhando todos os caminhos sem pouso certo, nada tendo de seu, a não ser o cavalo mal aperado, não podia merecer o amor de quem havia sido criado com mimo, na santa e augusta pás do Senhor; de uma criatura sensível e pura, meiga e terna, que sabia orar, de mãos postas, contrita, pelo desapoderado, pelo perjuro e mau, e pelos que sofriam, pelo faminto, roto e pelo desajustado.

Quem era bondade e pureza, humildade e amor, jamais unir-se ao cardo: entregar-se a um cristão que representava a lama, o estrume, o repelente e a podridão. E a vizinhança inteira detestou o errante. Ofendeu o pai, desrespeitou a mãe, injuriou o irmão e praguejou, má e impiedosamente, os íntimos, os que a queriam, os justos, os conselheiros.

Desgraça que tem de acontecer, acontece mesmo. A moça desvairada fugiu com o trota-mundo. A mãe desvairada caiu doente. E chorou quarenta dias e quarenta noites. Perdeu as forças e veio-lhe a cegueira. Dos olhos, profundos e negros, o pranto jorrava em borbotões. Não mais se alimentou. A boca se lhe transformou num rasgo de meter medo e impressionar.

Uma tarde, um vulto, surgido das sombras, falou-lhe: — Seu corpo desaparecerá, mas os seus olhos ficarão, pregados à terra, em forma de uma vala ou estrada funda, que o povo fronteiriço chamará de sanga. Dentro dela correrão as águas das enxurradas, que representarão as lágrimas que os seus olhos choraram, quarenta dias e quarenta noites. Quem passar e vir a sanga, profunda e desbeiçada, lembrará a sua história e amaldiçoará a filha ingrata que fugiu com o moço andejo.

Eis por que as sangas existem. A sanga fronteiriça será sempre a lembrança daquela mãe aflita e daqueles olhos de amor e ternura, que secaram pelo desgosto e pelo sofrimento.




O peão que viu Jesus

Hélio Serejo. Contos crioulos, p. 101-103.

Suas atitudes – sem dúvida – que eram esquisitas, profundamente, esquisitas.

Trabalhou na ranchada ervateira do paraguaio, Francisco Rojas, que não conseguiu suportar o maníaco por muito tempo.

Deu-lhe, certa manhã, boa e farta matula, e apontou-lhe a estrada. Era a “lei” dos ervais...

Foi parar na ranchada “Porto Bunilha” de “Don Chico’ Serejo”.

Falava pouco e, quando falava, tossia e gaguejava.

Fazia qualquer serviço. Era bem mandado, obediente.

Nunca, na ranchada, conseguiu a afeição das mulheres e das crianças.

Nele, entretanto, jamais viram uma atitude agressiva ou gesto de revolta.

Executava a sua tarefa, comia e ia dormir na cobertura feita com carpa.

Madrugadão estava de pé.

Para esperar pelos demais companheiros, sentava-se num tronco de árvore e ficava batendo os dedos na madeira como se estivesse acompanhando uma música.

Ficou, na ranchada, cinco meses.

Não fez amigos, viveu a sua vida, sem malquerência e atritos.

Era, em suma, um cristão, até certo ponto feliz.

Uma tarde quando voltava de um goiabal nativo, disse ao “Capataz-Rancho”, que vira Jesus Cristo... que chegou bem perto, e que Ele, não tocava os pés no chão.

Viu, claramente, que era o Filho de Deus.

O “Capataz-Rancho” ouviu tudo em absoluto silêncio.

Como contrariar um ser humano nessas condições? Seria um ato ignóbil, uma agressão a pureza do sentimento cristão.

Desmenti-lo, seria ofendê-lo violentamente.

Melhor – pensou o capataz – deixá-lo reafirmar que, Jesus Cristo, ficou à sua frente, bem pertinho, sem tocar os pés no chão.

Foram dormir após o encontro de poucas palavras.

Só que o peão não amanheceu na ranchada.

A cobertura de carpa, estava dobradinha em cima do tronco da árvore, que lhe servia de banco.

O luar clareava a imensidão, o que facilitava sobre-maneira a caminhada pelo “trilheiro” de muitas curvas.

Não foram procurá-lo. Em uma noite inteira de luar, repleto de magia, um cristão, a pé, vence muitas léguas sem castigar o corpo.

Na ranchada, durante dias e dias, não se falava em outra coisa, a não ser na “aparição de Jesus Cristo”, e na fuga do peão.

Alguns acreditavam, piamente, na “visita” de Jesus.

Cercaram o lugar e ergueram uma cruz.

Os mais afoitos arriscavam palpite: - Podia ser mesmo o Filho de Deus; viera – quem sabe! – para abençoar a ranchada oculta na mataria escura, que não tinha fim.

Assim, com esta e outras manifestações, iam lembrando a figura exótica do andante de muitos ranchos ervateiros e vilarejos esquecidos.

Para localizar o fugitivo, só houve mesmo o “pergunta-pergunta”, insistente, de um grupo de ervateiro da região.

Tudo, porém, sem notícia satisfatória.

Nem o sinal da plantilha (plantilla) de pneumático, ou indício de rasto nas carreteras, cabeceiras arenosas, brejos e varjões, por onde o fujão, forçosamente, teria que passar.

Nada. Nenhum rasto. Nem galho verde quebrado, distração de todo caminero, que viaja a pé.

Passados cinco anos, o mistério foi desvendado.

Pescadores do “baixo-paraná”, a uma distância de trinta quilômetros de “Porto Mendes”, encontraram uma pequena curva arenosa do rio, um crânio humano, com profundo corte pouco acima da orelha direita.

O Crânio – opinião unânime – era, sem nenhuma dúvida, do peão que vira Jesus Cristo.

Tinha ele, um “rebaixamento” na cabeça, que a peonada chamava de buracão.

E a causa da morte? Todos tiveram o mesmo pensamento: foi tomar banho, teve uma síncope e morreu afogado. Viável, sim!



Saca suerte

Hélio Serejo. Contos crioulos, p. 129-131.

Nas épocas de festas elas apareciam nas ranchadas ervateiras.

Infundiam confiança pela firmeza no olhar. Olhar duro, sempre indagador, fuzilante...

Tiveram, ao longo da fronteira, denominação variada: Saca-Suerte, Tira-Suerte, Sortista, Suertera, Buena-Dicha, Adivinha e Gitana.

Desses nomes, porém, o que ficou foi, Saca-Suerte.

Gostavam todos – principalmente peonada de erval – do Saca-Suerte.

Nome que “enchia os pulmões”, agradava, gerava confiança.

Até para namoro e casamento, o Saca-Suerte imperava.

Botava banca na “hora solene”, distribuía as cartas, intensamente coloridas, abaixava a cabeça, cerrava repentinamente os olhos e ia sentencionando: Buem casmiento... óptimos negocios, riqueza. Realizará un largo viaje de regreso a sua tierra natal. Feliz y… platuda.

Coitadinha da Saca-Suerte, da Suertera!

Boazinha de coração. Nunca dá notícia desagradável.

Parece que a sua missão é animar, encorajar sempre o consultante.

Colocar em seu coração carradas de esperanças.

A gitana dos ervais nunca foi um mal. Ganhou o seu dinheirinho.

Muitas, “arrumaram casamento”, construíram o seu ninho, tiveram filhos.

Jamais negaram a vida passada.

Uma atitude, um gesto até enobrecedor.

Conheci Madalena, a “Lena” de olhos encantadores, corpo escultural, andar miúdo, longos cabelos negros.

Veio bater nos ervais para acompanhar o irmão gêmeo, Márcio Arevalo.

Eram queridos por todos. Boa educação e cordialidade repleta de meiguice.

Dizia a peonada: - Lena no era uma mujer que pudiera vivir en los yerbales... tenía todo para ser admirada o hacer suceso en cualquier salón.

Os mais afoitos ajuntavam em forma de súplica: - Dios Nuestro Señor le dará el destino que se merece. Y le dio...

Lena “fez casamento de cartório”, com um funcionário da Petrobrás que visitava Campanario, ocasião em que conheceu Madalena que se convalescia de uma maleita complicada.

Viu-a, e ficou enamorado. Conversaram demoradamente durante dez dias. Acertaram tudo. Estavam sendo protegidos pelo Pai-Eterno.

O casamento foi na cidade paranaense de Cascavel, onde residiam os pais do moço, “chefe da máquinas de um petroleiro que fazia cruzeiro internacional”, em permanente intercambio comercial.

Foram, pouco tempo depois, parar na Índia, por imperiosa necessidade de serviço.

Tiveram três filhos: dois meninos e uma menina.

Márcio Arevalo, o irmão gêmeo, fazia parte da família feliz.

Lena nunca esqueceu o rancho ervateiro. Gostava de desfilar recordações. Sentia-se bem com isso.

Jamais ocultou, a cristão nenhum, haver sido, no passado, uma SACA-SUERTE.


Referências

•          SEREJO, Hélio. Lendas do Estado de MS. In: Hélio Serejo – Obras completas. Campo Grande, MS: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 2008.

•          _____. Contos Crioulos. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 1998. (Coleção Registros documentais e memória regional, 2)

6º e 8º ANO - Elementos da Linguagem Visual


Ponto

• O ponto ocupa no espaço uma posição. Não tem geometricamente dimensão, área ou superfície é simplesmente invisível. Sendo o elemento visual mais simples é necessário graficamente torná-lo visível. Resulta por exemplo do primeiro contacto do lápis com o papel.


Linha

• Um ponto em movimento gera uma linha. Assim uma linha é constituída por um conjunto de pontos.

• O comprimento é a única medida que uma linha pode ter e a sua representação no espaço é infinita

• A linha é um elemento gráfico de desenho muito importante, com ela definem-se as formas e podemos exprimir a nossa imaginação e criatividade.


Plano

• O plano é caracterizado por duas dimensões: comprimento e largura. Tem uma área mas os seus limites não estão definidos, tendo todos os pontos que o constituem na mesma superfície.

• Quando fazemos uma planificação, desenhamos no plano o projeto ou o estudo de um trabalho. Diz-se bidimensional por ter só duas medidas ( comprimento e largura ).

• As formas bidimensionais podem ser: desenho, esboço, gravura, fotografia, manchas, cartaz, logotipo, etc.



Volume

• O volume é o espaço contido dentro de uma forma tridimensional

• É tridimensional porque a sua forma é definida pelo comprimento, largura e altura.

Textura

• A superfície de uma forma é caracterizada pela textura

• Através da visão ou do tacto, percebemos se uma superfície é quente ou fria, áspera ou macia.

• Há texturas naturais e texturas criadas pelo homem

• A natureza é rica em texturas



Forma e fundo

• A forma é o contorno de uma determinada figura ou objeto. O fundo é o espaço onde se colocam as figuras ou objetos.

• Do entendimento entre a diferença da forma e do fundo, nasce a compreensão da obra, se assim não fosse as imagens apareceriam confusas.


Equilíbrio

• Uma composição equilibrada, significa que há uma harmonia visual entre os elementos que a constituem. O equilíbrio pode ser obtido através da simetria ou do peso visual.


Contraste

• Contraste é a oposição entre coisas ou pessoas, uma das quais faz sobressair a outra. O contraste entre claro e escuro numa composição, usa-se para se mostrar ou evidenciar uma determinada forma.


Teoria das cores

• O arco-íris é um fenômeno da natureza que se pode observar em certas condições especiais, como chuva e sol ao mesmo tempo.

• No período que antecede a chuva ou depois, existem no ar grandes quantidades de gotas de água. A luz solar ao atravessar estas gotas sofre uma decomposição, tal como num prisma, originando luzes coloridas

• As cores são classificadas em duas categorias: cor-luz e cor-pigmento


Cor-luz

Cor-luz: na luz branca estão presentes todas as cores

• As cores primárias na cor – luz (soma de todas as cores), são diferentes na cor pigmento. O pigmento é o material que tinge uma superfície e com ele criamos uma infinidade de cores


Cor-pigmento

• Não é possível pintar com luz, isto é, com cores ópticas. Por isso os pigmentos são utilizados

• O pigmento na realidade não é uma cor, ele é o material ou a substância que tinge uma superfície com uma certa cor, e dependendo das características ou propriedades desse pigmento a sua tonalidade pode variar. Eles podem ser extraídos da natureza ou criados artificialmente em laboratório.


Cores

• Quando se divide o circulo cromático ao meio, cortando o amarelo e o violeta, percebe-se que os vermelhos e os laranjas do lado esquerdo, são cores quentes, vibrantes. Do outro lado são cores frias, os azuis e verdes, que transmitem sensação de repouso e tranqüilidade.




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Referências

ELEMENTOS DA LINGUAGEM VISUAL. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/6881427/Elementos-Da-Linguagem-Visual – acesso em: 06 de setembro de 2009.

O QUE É COMPOSIÇÃO VISUAL. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/oficinas/arte/elementos/mod01/04__composicao.htm – acesso em: 06 de setembro de 2009.